domingo, 23 de julho de 2017

A Morte

         A realidade sobre a morte só se torna presente e constante em nossos pensamentos com o passar dos anos. E em especial, na velhice.
           Isso acontece quando começamos a perder nossos entes queridos e nada podemos fazer para impedir que eles nos deixem. Por mais que se diga o contrário, é difícil continuar a nossa vida sem as pessoas que queremos bem. Percebemos, então, que estamos na fila, à espera que a nossa vez chegue.
          Às vezes, queremos que ela chegue logo, outras vezes, que ela demore a nos levar. Vai depender do nosso estado de espírito, que muda diariamente: um dia, nos sentimos felizes, alegres, animados, esperançosos...queremos viver! Porém, nos dias que estamos nos sentindo solitários, tristes, desanimados, queremos que a morte nos leve.
          Quando se é jovem não se tem tempo de pensar nessa realidade. Ainda bem que os jovens têm outra prioridade: VIVER!
          Depois de uma certa idade, lá se vão as ilusões! A nossa saúde se torna mais frágil... Quase tudo na vida perde o encanto. A solidão...ah! a solidão é uma companheira constante e a preferida dos idosos! É na solidão das madrugadas que pensamos em nossas vidas, sem interferência de ninguém. E é nessas horas que mais se pensa na morte. É nessas horas que oramos e agradecemos.
          Muitas coisas deixamos de fazer, mas em compensação, muitas outras coisas foram feitas. Pesamos em nossas balanças mentais os prós e os contras. Entre as coisas que fizemos, erramos e acertamos. E tudo valeu a pena.
          Hoje, o que nos resta é admirar a natureza. Deus tudo fez e com perfeição. O tempo de vida que nos resta é suficiente para a contemplação.
          E quem sabe, entender os desígnios do Pai Celestial: nascemos e vamos morrer, um dia. E se formos merecedores, teremos um lugar no Céu.

(À Nair, mana querida - in memoriam )
           
         
        
               

domingo, 9 de julho de 2017

Guarulhos, 09 de julho de 2017.

Meu irmão de nome bíblico

          Boanerges! A palavra foi usada na Bíblia, para descrever Tiago e João, que são os filhos do Trovão. O que Jesus quis dizer é que ambos eram homens justos.
          E assim como eles, meu irmão Boanerges é um homem  justo! Mas o nome dele foi dado pelo meu pai para homenagear um comandante do Exército e não porque ele entendia de nomes bíblicos!
          Acontece que como toda adolescente da década de 60, eu também não gostava de ter um irmão mais velho. Ele não me perdia de vista. Controlava  todos os meus passos, horários, amizades e namorados! Tá certo que era a mando da minha mãe, que por sua vez, recebia ordens do meu pai pra ficar de olho em nós.
          Minha mãe, com tantos afazeres, cuidava de nós quatro, mas contava com a ajuda do meu irmão Boanerges para ficar de olho nas meninas, eu  e a Nair.
          O tempo passou, todos nós nos casamos. Construímos nossas famílias. Tivemos filhos, netos... mas apesar de morarmos distantes, meu irmão mais velho sempre se preocupou conosco.
          Sou eternamente grata pelas vezes que recebi o seu apoio.
          Éramos seis, agora somos só ele, eu e meu mano caçula. Temos muitas boas lembranças para recordarmos de nossa infância e adolescência. O meu irmão de nome difícil começou a trabalhar muito cedo pra ajudar em casa. São várias histórias interessantes em que ele foi o protagonista.

          E continua sendo ao longo da vida: primeiro, na companhia dos nossos pais, depois no colégio, como ótimo aluno, depois no trabalho, como funcionário exemplar na Volkswagen, na Faculdade, depois de casado, com a esposa, com os dois filhos e os dois netos...um eterno protagonista! Tenho muito orgulho de ter você, meu irmão!
Goiânia, 23 de março de 2013.

À Elaine

          Voltando ao assunto:
          Só depois de 72 horas, que a médica Dra. Maria Anita foi falar com você e esclarecer todas as dúvidas em relação ao tratamento e aos medicamentos. E ela queria ouvir de você o que a levou para o hospital.
          A doutora a aconselhou a fazer terapia. A preocupação maior era com a bebida.
          Lá, você ficou sem cartão, sem celular, sem contato com o mundo.
          No quarto, que eles chamam de apartamento, tinha ao seu dispor, uma televisão pequena e colorida, duas camas, um armário, um quadro na parede com a pintura de duas flores azuis, um telefone para receber ligações em horários predeterminados, banheiro com pia e chuveiro. Nós recebemos roupas de cama e toalhas. E também muitas regras vieram juntas.
          Como ficamos três dias lá, não deu tempo nem vontade de aprender algo na sala de artesanato.
          Durante esse tempo que fiquei com você, conheci Inês, professora de matemática da sua escola; Daniele, psicóloga; Francini, professora do primeiro ano; Maurília, a Diretora e Lúcia, secretária do hospital.
          No dia da sua alta médica, ainda comi muitas acerolas direto do pé!
Às 10h você recebeu alta. Voltamos para casa apreensivas. Como seria dali pra frente?
Foi uma época muito difícil nas nossas vidas, mas uma frase me consolava: “Quem pensa em morrer, está negando Deus”. E eu retrucava: “Eu me rendo a Ti, Jesus, diante da Tua presença, do Teu amor e de Tua Grandeza!” E ele respondia: “Deixe para trás tudo o que é velho. Ressuscite!
          Depois de oito dias, em 30 de março, voltei pra Sampa.
                       

                                                                                                          Dinorá




Goiânia, 21 de março de 2013.
A você, Elaine

          A manhã está linda! Ouço o canto de muitos pássaros. E quantas borboletas coloridas! O cavalo solitário se alimenta na grama verdinha e farta, num pasto ali, próximo do quarto que estou... O lugar, como um todo, é agradável e bem cuidado.
          Enquanto eu aguardo a hora de poder conversar com a Elaine, que lá se encontra reclusa, há mais ou menos um dia, acalmo a minha ansiedade, observando o local.
          Tudo é muito bonito e alegre, muito verde e muito espaço para fazer caminhada.
          Há um barulho de água que cai e escorre entre as pedras, no jardim, dia e noite. Barulho forte nos dias de chuva e quase inaudível nos dias ensolarados. O som das águas me traz um certo conforto.
          Os internos são muito estranhos, ou melhor, eu os acho estranhos, mas é normal, pois estão sob efeito de medicamentos...
          O pátio interno é cercado de muitas árvores, é bem grande, com mesas de concreto espalhadas. Alguns internos permanecem sentados, olhando o nada, outros conversam conversas indecifráveis, sem sentido...e outros perambulam pelos espaços entre as mesas, mas não saem daquele local.
          Às vezes, nos cumprimentam, e na maioria das vezes nem nos veem.
          Tudo isso observo do dormitório. Estou com um certo receio deles, apesar da vontade de sair e de respirar ar puro.
          Até que finalmente, depois de conversar com o médico, a Elaine foi liberada da ‘prisão’ e do isolamento e então, pudemos ficar juntas.  E juntas, saímos para fazer as refeições, para conversarmos no pátio e irmos às reuniões espíritas, na capela.
          Numa das tardes, ocupamos uma das mesas. Não adianta querermos ficar sós. Eles vão chegando, puxando uma cadeira e se sentando ao nosso lado. E o que é pior: fazem revezamento, para se sentarem. Todos querem se aproximar, mas as cadeiras são poucas.
          Avistamos um canil. E o Jesus, um interno, que está ali sentado conosco, sai e vai lá dar pão aos cães, o pão que ele não quis comer no café da manhã. Outra interna, Débora, contou a vida dela pra nós: ela estava ali, dizia -  porque acreditaram no meu marido, não estou doente, mas me internaram, dizendo que eu precisava me acalmar. E ainda nos contou uma piadinha infame: “O antigo Papa foi o Bento; o atual é o Chico e o próximo será o Cebolinha.”  
          Desistimos de continuar a ouvir. Ali, todos tinham suas histórias pra contar. E nós duas tínhamos a nossa! Voltamos.  Agora podemos ocupar o mesmo quarto. E apesar dos doentes não entrarem, eles ficam nos espionando. É a nossa privacidade, caramba!
          A noite chega! As portas e janelas trancadas por fora! No mínimo, para evitar que algum sonâmbulo errasse de porta. Escuridão! Que horror! Que medo de incêndio! Apavorante! Às seis da manhã, as portas destrancadas para a primeira refeição do dia! Noite infindável!
          É ali, no nosso quarto que conversamos, assistimos à televisão, tentamos jogar gamão, (não gosto de jogos), ao contrário de você, Elaine, que curte uma partidinha; lemos, corrigimos avaliações de Português, tentamos assistir a algum filme, mas em vão...fazemos nossas necessidades, higiene pessoal e... dormimos!
          É a nossa rotina. Graças a Deus que a nossa estada é temporária. Vamos voltar para casa em breve.
          Nunca, na minha vida, pensei em passar por uma situação dessas! 
               
                                                                                                                               Dinorá           

                    

quarta-feira, 28 de junho de 2017


QUANDO FLORESCEM OS IPÊS 



          Estávamos conversando num dos corredores do colégio, durante o intervalo, entre uma aula e outra. Era o ano de 1984.
          - ‘fessora’.
          - Oi, Márcia.
          - Você concorda com o que dizem por aí, que cada um de nós, nesta vida, deve ter filho, escrever um livro e plantar uma árvore!?
          - Concordo sim, mas não precisa ser exatamente nessa ordem.
          - Rsrsrs...estou falando sério...
          - Eu sei. Eu também! Minha querida... eu já tive filhos, escrevo há um bom tempo, desde 1969...está me faltando plantar uma árvore... tem que ser algo especial... Tenho pensado nisso. Que árvore seria? Em que lugar deveria plantá-la? Quem eu homenagearia?
          Eu estava pensativa e ela percebeu que isso era deveras importante pra mim. De repente, veio a primeira surpresa:
          - Qualquer hora, vou te levar à minha casa, pra te mostrar as árvores que eu tenho no meu quintal...
          Márcia era uma adolescente de 17 anos, alta, comunicativa, muito tagarela, mas com uma voz bem enjoada, melosa e às vezes, chegava a irritar alguns colegas da turma por causa da voz e porque era sempre a primeira a responder as perguntas dos professores, a primeira a entregar as atividades propostas, as avaliações bimestrais... Interessante que a atitude deles não a incomodavam.  
          - Entre, ’fessora’. Esta é a minha mãe, e esses são meus dois irmãos. Meu pai está no trabalho. Só chega à noite. E esta é a nossa casa!
          Entre uma xícara de café e muita conversa, ela começou a me mostrar as árvores que lá estavam e que foram plantadas há um bom tempo pelos avós paternos.
          Então, ela me disse que iria me dar algumas sementes de presente. Foi a segunda surpresa, e que eu amei! Pediu-me o meu endereço.
          Algum tempo se passou, não tivemos mais oportunidade de conversar. Até que ela veio a minha casa com uma caixinha nas mãos. Convidei-a para entrar, coisa que ela fez sem cerimônia.
          - Senta, Márcia. 
          - Não, ‘fessora’, tenho que voltar pra casa logo, antes que escureça. Só vim te entregar esta caixinha. Amanhã conversamos na escola.
          Agradeci e a acompanhei, até o portão. Ao voltar pra dentro de casa, abri aquela caixinha. Eram as sementes! Dei pulos de felicidade! No dia seguinte, antes de sair para o trabalho, procurei um lugar para plantar aquelas sementes. Achei por bem plantar na calçada, pois aquela casa que eu morava não me pertencia. E eu não queria correr o risco de não poder vê-la, quando me mudasse de lá. Fui acompanhando o crescimento da árvore. Num belo dia, depois de muito tempo, de um mês de julho, as folhas caídas deram lugar a primeira florada. A floração do ipê amarelo foi a minha terceira e mais bela surpresa, bem em frente à casa que eu morava! Meu ipê amarelo, solitário e belo!
          Já estávamos de recesso escolar, quando voltei à casa da Márcia pra contar a novidade a ela, mas qual não foi a minha maior surpresa, quando soube pela mãe que ela havia morrido! Ela tinha um problema grave no coração e nunca havia comentado com ninguém sobre isso. Com 19 anos foi para a eternidade.  Ela não praticava Educação Física e eu, pra não ser indiscreta, não perguntava o porquê dela não participar das aulas. Poucos colegas de escola ficaram sabendo da morte dela. Poucos foram ao velório e ao enterro.
          Sou muito grata, Márcia, porque senti que você me deu aquelas sementes com muito carinho e até hoje, apesar de morar longe, eu passo naquela calçada e o meu pensamento vai pra você. O ipê amarelo lá se encontra para quem quiser ver.
          O ipê é árvore símbolo do Brasil e é o símbolo eterno de nossa amizade!
                  
                                              
                                                                                     DINORÁ

(Obs.: O título é em homenagem a Ganymédes José, autor de “Quando florescem os ipês”)