domingo, 29 de março de 2009
De volta ao passado I
Depois de 27 anos, voltei à Escola Estadual “Cid Augusto Guelli”, para retirar uma pasta com meus documentos. Pedi informação para várias pessoas pois não me lembrava mais de como chegar lá. O bairro está totalmente mudado. Na época, as ruas não eram asfaltadas e o matagal encobria tudo. Lembro-me que tomava o “poeirinha”, nome dado ao ônibus pelos moradores. Ficava na Via Dutra esperando o ônibus; se o perdesse, voltava para casa. A viagem era demorada, durante uns cinqüenta minutos ia “comendo” poeira até chegar à escola. De dentro da escola via-se uma paisagem bucólica, um campo enorme com animais pastando. Hoje, a escola é toda fechada, não se vê mais as ruas, os campos...Fui recebida pela diretora da escola, que percebeu minha emoção e me convidou para ver a escola...que saudade das pessoas que conheci naquela época, não as vi mais: o Roberto, inspetor de alunos com 19 anos, a professora Dilzete, de geografia, o professor Celso, de matemática, a Janete, com sotaque cearense, professora de inglês...Olhei aquelas salas de aula repletas de alunos...eles nem perceberam a minha presença, tão atentos que estavam nos professores. Eu perguntei à secretária da escola, Érica, como ela conseguiu encontrar aquela pasta azul...faz tanto tempo...e ela me respondeu com um sorriso:”Deu trabalho, mas encontrei...” Peguei a pasta, li o meu nome escrito por mim mesma...Agradeci à diretora Helena, elogiei a escola e ela me disse que ia ficar melhor ainda. Ela me acompanhou até a porta e nos despedimos...acho que pra nunca mais voltar lá...Meu filho caçula estava comigo e, perdidos em nossos pensamentos, acabamos errando o caminho de volta pra casa...fiquei com aquela sensação de despedida das coisas que ficaram pra trás.
sábado, 28 de março de 2009
sexta-feira, 27 de março de 2009
Mulher de fases VII
Ao longo de todos esses anos, fiz o que todo mundo deve fazer para se sentir pleno: Plantei uma árvore. Tive filhos. Escrevo crônicas e poesias que um dia serão publicadas num livro.
A árvore que plantei: uma aluna chamada Márcia, do E. Médio, deu-me as sementes de Ipê. Plantei-as na calçada da casa onde eu morava naquela época. Márcia foi uma aluna muito querida, estudiosa, aplicada...sofria do coração e morreu aos 18 anos...
Mudei de residência, mas toda vez que volto àquele lugar, observo o Ipê, carregado de flores amarelas e lembro com saudade da aluna que morreu em plena juventude.
Entre as inúmeras poesias que fiz, escrevi uma para cada filho, para homenageá-los.
As crônicas traduzem toda a sensibilidade de uma observadora de mundo, de gente como a gente...Gosto muito do que escrevo.
Por hoje é só...
Mulher de fases VI

Resolvi ser professora, por opção...Não tinha vocação pra nada...Só fiz faculdade depois de casada e com meus dois primeiros filhos com a idade de 9 e 10 anos. Meu marido pagou a minha Licenciatura Plena.
Peguei amor à profissão. Durante 27 anos fiz a mesma coisa todos os dias: entrava numa sala de aula. Lecionei para alunos do Ensino Fundamental e Ensino Médio. Agora que se aproxima a minha aposentadoria, sei que vou sentir falta dessa convivência diária com adolescentes.
Tenho boas lembranças das escolas públicas em que lencionei: foram mais de 20, aqui, em Guarulhos e em São Paulo. Lembro-me de quando, eu e minha filha, fomos fazer um curso preparatório, em São Paulo. Foi uma piada, armamos uma cena e saímos da sala de aula. Não estávamos gostando da maneira como estava sendo apresentado o curso. O professor está até hoje esperando a nossa volta...
Não me lembro bem, acho que estudamos juntas as apostilas e passamos no concurso que nos efetivou no Estado.
Vamos à próxima...
Mulher de fases V

Hoje, entrando na meia-idade, tenho consciência de que não gostaria de voltar atrás...Já estou me aposentando por tempo de serviço. A minha saúde foi ótima até o final do ano de 1999. Convivo com meu coração rebelde, que teima em bater lentamente, que muitas vezes me impede de fazer as coisas de que gostava outrora, como por exemplo, dançar. Até aquele ano, eu dançava, em qualquer lugar da casa, no trabalho, durante as apresentações dos alunos nas festas da escola...era só ouvir uma música tocar no rádio, lá estava eu dançando...
Houve um desentendimento com um aluno do 2º Ano do Ensino Médio, cujo nome era ou é, não sei, Fábio. O ódio dele foi tão grande, me ameaçou, ameaçou minha filha, que também era professora na mesma escola e que veio em meu socorro quando ele tentou me agredir. Nunca mais fui a mesma. Ele desejou a minha morte. Na época, comentaram que até trabalho de macumba ele fez para que eu morresse.
Não morri, como vocês estão vendo, mas fiquei oito dias na UTI, em 2000. E até hoje, encontro pessoas daquela época que presenciaram os fatos e comentam. Não dou atenção, porque sei que é maldade delas, pois querem me fazer lembrar de um acontecimento tão desagradável.
Vamos a próxima...
Mulher de fases IV
Inconformada com minha "má" sorte, dizia pra mim mesma: "Quem sabe um amor adulto vai me fazer bem..."
Pois é...enquanto há sonho, há ilusão, vale a pena tentar...
Conheci um jovem e resolvi me dar uma chance...Depois de 18 anos, esse relacionamento chegou ao fim. Jovem trabalhador, sem vícios...Um casal de filhos...Foi muito bom enquanto durou...havia amor, admiração, cumplicidade, fidelidade, tesão. Quando a pedra de dominó da admiração caiu, foi derrubando todas as outras pedras de virtudes numa sequência.
O sonho acabou e a ilusão também. E a idade foi chegando...E hoje estou só...completamente só.
Próxima fase: Quem sou eu hoje.
Mulher de fases III
Casei-me aos 20 anos, com um jovem comerciante. Na época de namoro, fui visitá-lo no Quartel, em Quitaúna. Ele serviu o Exército durante um ano e todas as vezes que fui visitá-lo, ele chorou. Dizia que era de saudade. Ia com os pais dele que sempre nos deixavam a sós. Naquela época, os soldados ficavam no quartel e só depois de um ano voltavam para seus lares.
Casamos. Tudo muito bonito, a cerimônia religiosa, o civil, a festa, a viagem de núpcias...os presentes. Um ano depois, a primeira filha, depois o segundo filho. Com quatro anos de casamento, o pesadelo começou. O fantasma do alcoolismo estava de volta. Foram dezoito anos, até que veio a separação definitiva. Sete anos depois da separação, ele morre de cirrose hepática. Apesar dos pesares, fui feliz. Às tardes, quando minha filha estava com 1 ano, eu ia com ela, à praça Santo Eduardo, sentava-me no banco, enquanto ela dava seus primeiros passinhos...
Vamos à próxima fase: Em busca do amor...
Mulher de fases II

Lembro-me de que com sete anos, minha mãe se queixava para minha tia que morava num bairro distante. Numa das vezes que fomos visitá-la, minha mãe me deixou com ela, pois não tinha filhos e sabia da dificuldade de minha mãe para criar quatro. Seríamos oito se minha mãe não tivesse abortado. Minha tia me colocou num colégio de freiras para eu fazer a primeira série e a segunda. A minha mãe me quis de volta e eu chorei muito ao deixar a minha tia. Lá, na casa dela não tinha briga, não tinha alcoólatra e era só eu de criança. Foram os anos mais felizes da minha vida. Já com 12 anos, fui estudar num colégio, que na época, era só de meninas. Fiquei retida na 5ª série. Na sexta série, a escola se tornou mista e eu conheci o amor da minha vida. Aprendi o que era sofrer por um amor não correspondido. A adolescência foi uma fase de muito namoro, mas amor de verdade, nunca mais. Do que mais gostei nessa fase foram os bailes. Dancei muito, todos os sábados lá estava eu na quadra do colégio de freiras, o Sion. Nessa época, quem nos contralava era meu irmão, que obedecia ordens da minha mãe. Meu pai continuava presente, mas distante dos filhos. Sempre muito calado e continuava com aquele vício. Eu cansei do controle rígido exercido pela minha mãe e aos vinte anos resolvi mudar de rumo. Mesmo sem amor, casei-me com uma pessoa que dizia me amar mais que a própria vida. Ele provou o contrário. Esta história fica para a próxima fase: Adulta.
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Mulher de fases I
As lembranças são muitas, e nesta primeira fase vão aqui as recordações da minha infância.
Vivia com meus pais e meus irmãos num barracão de madeira, construído num terreno que nem sei de quem era. Um cômodo grande, o quarto, e outro, pequenino, a cozinha com um fogão de lenha. Guardo lembranças tristes dessa época. Minha mãe, muito brava e o pai, calado. Ambos trabalhadores. Ele, motorista de caminhão. Transportava carrinhos de mão, igualzinhos os de hoje, que os pedreiros usam. Minha mãe, costureira. Toda a roupa, minha e dos meus irmãos, eram confeccionadas por ela. Uma perfeição. Ele, alcoólatra...ela, nervosa, pois ele todos os dias bebia depois do trabalho. Brigas diárias. Havia um muro que separava o barraco de uma sede de futebol. Lá, os jogadores comemoravam as vitórias, faziam bailes, se divertiam. Num final de semana, meus pais começaram a brigar, rolaram pelo chão e eu e meus irmãos corremos e pedimos ajuda aos jogadores. Alguns deles pularam o muro para separá-los enquanto os outros se divertiam com a briga do casal. Toda ira da minha mãe era descontada em nós. Apanhavámos por tudo e por nada, com o que tivesse pela frente...Uma vez, meu irmão mais velho, na época com sete anos, desobedeceu-a. Ele foi a uma lagoa, estava belo e folgado, sem roupa, nadando com seus amiguinhos...Minha mãe procurou-o pela casa e saiu à rua. No caminho, apanhou uma vara de marmelo e foi ao encontro dele, porque alguém avisou onde ele estava. Meu irmão veio apanhando de lá até em casa. Ele ficou todo marcado. Numa outra ocasião, eu e minha irmã brigávamos por causa de uma banana. Minha mãe deu-nos uma surra e saiu. Voltou com uma dúzia, nos obrigou a comê-las todas e ....abraçadas. Nunca mais brigamos. Era a maneira de minha mãe nos educar.
A próxima fase: adolescência.
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